Ando muito ocupada brincando de afastar a cólera. Passo horas observando minhas pernas e odiando os dedos dos pés.
Tenho tentado me colocar no automático, sem sucesso. Eu penso demais. E pra cada pensamento ansioso, danço cinco músicas inteiras, e volto ao normal.
Não consigo me concentrar, nem planejar amanhã ― minha rotina está desnorteada. Faço nada de manhã, nada a tarde, nada a noite e nos intervalos sempre cantarolando uma canção.
Converso meias palavras com quem se aproxima, mas eu escondo o jogo. E não conto pra ninguém os meus planos. Penso que maluquices não são de fato planos. Volto a estaca zero.
Procuro explicar fatos quase sobrenaturais e tento entender as pessoas e o que elas dizem, e pensam, e sentem. Elas são só um grande bocejo e uma grande mentira.
Passeio pela cidade como se fosse a última vez e resumo todo o acima à uma palavra: espera.
